Je t’aime totalement, tendrement, tragiquement.
Diz não com a cabeça
diz sim com o coração
diz sim ao que ama
diz não ao professor
está de pé
sendo arguido
e todas as perguntas lhe são feitas
de repente morre de rir
e apaga tudo
os números e as palavras
as datas e os nomes
as frases e as armadilhas
e apesar das ameaças do professor
debaixo da vaia dos meninos prodígios
no quadro-negro da desgraça
com giz de todas as cores
desenha o rosto da felicidade.
(Trad. Silviano Santiago)
the gods will offer you chances.
know them.
take them.
| — | Trecho de “The Laughing Heart”, Charles Bukowski. |

Tem um amigo meu que sustenta a opinião de que o valor de uma canção está em sua capacidade de inserção na cultura popular. Segundo ele, quanto mais enraizada e até mesmo “anônima” a canção for, tanto melhor. Eu, no entanto, não concordo com esse ponto de vista. Não acredito que a popularidade seja a melhor medida para se julgar as possíveis qualidades de uma canção ou mesmo seus defeitos. Aliás, o fenômeno da popularidade é algo que eu julgo controverso e sobre o qual ainda não cheguei a nenhuma conclusão que me agradasse, de modo que, ao conversar sobre o assunto, a única contribuição que eu tenho a dar é esta: que a popularidade é um fenômeno em si que não agrega necessariamente valor qualitativo.
Mas voltando à afirmativa do meu amigo, umas das conclusões que eu posso tirar dela, e sobre a qual acho que reside a fragilidade da sua opinião, é que ele mantém um pensamento pré-capitalista sobre a canção. Por que pré-capitalista? Porque ele ainda pensa a canção contemporânea como fenômeno cultural e não como produto cultural. Creio que esta distinção entre fenômeno cultural e produção cultural seja clara: ao passo que no fenômeno se agrega as expressões culturais anônimas e conjuntas de um povo (por exemplo, o samba-de-roda do recôncavo baiano), o produto cultural nasce sob a égide de um indivíduo que, embora manipule este material cultural anônimo e comum, tira dele sua expressão particular e sobretudo o comercializa como seu. Aliás, tenho pra mim que a canção como a conhecemos só começou a existir quando virou produto cultural.
Caetano Veloso, em um trecho do programa Samba na Gamboa (este: www.youtube.com/watch?v=s6kIFbmMDww), fala exatamente sobre esta distinção entre fenômeno ou expressão cultural e produto cultural ao explicar ao entrevistador como compôs sua primeira música gravada (“É de manhã”, de 1963). É uma fala curiosa porque retrata exatamente a transição entre o estágio pré-canção para o que hoje entendemos como canção autoral. Ele termina o trecho do vídeo dizendo que mesmo sendo “outra coisa”, a sua canção e a cantiga popular são “a mesma coisa”. Eu diria que mesmo vindo da “mesma coisa”, “É de manhã” e a cantiga popular não são a mesma “coisa” e não podem ser medidas sob o mesmo parâmetro.
«Esteja escrevendo versos ou esteja ilustrando peças literárias (sobretudo poesia), o português Luis Manuel Gaspar não pode ser chamado de outra forma: a rigor, ele é um poeta.
[…] Por poeta, por favor, percebam o homem que em tudo o que produz parte de um princípio poético, onde o belo e o transcendental estão em comunhão, e onde há algo de mágico e imemorial. Algo raro, é verdade, mas talvez por isso mesmo de especial textura e brilho.»
— Ederval Fernandes, OBVIOUS, ‘Artes e Ideias’, Julho 2011.



